26.7.06

PODER E SER

Capítulo do vol. I de Análise de Temas Sociais

Toda historia do Poder (Kratos) tem demonstrado que nenhum poder estaciona espontaneamente. O poder é difuso e prepotente, insaciável e avassalador, tende a crescer sempre, e só a oposição de outro poder o restringe. O ser é difusivo e filosoficameente se pode dizer que tudo tende a ser plenamente si mesmo, além de seus limites actuais, da sua estância intrínseca, potencialmente in infinitum. Assim como se pode dizer hoje, ante os actuais conhecimentos da Física, que o campo potencial de um ente físico tende até os limites do universo, também se pode dizer que todo ser tende, enquanto ser, a avassalar tudo. Neste caso não há limites apenas em si mesmo, limites traçados por uma espontânea limitação de sua própria natureza, mas sim como conseqüência de uma cooperação dos obstáculos, que outros seres, levados pelo mesmo ímpeto fundamental do ser, oferecem aos outros, cuja dinâmica nos explicaria a heterogeneidade do universo. Esse poder difuso do ser é, tomado em si mesmo, limitado pela forma (e conseqüentemente, por sua natureza, como complexo de forma e matéria, no sentido clássico do termo), mas ilimitado em seu ímpeto afirmativo, não obstante contido em seus limites estáveis da forma e instável de sua accidencia, pelos obstáculos opostos pelos outros seres, que, em idênticas condições, apresentam o mesmo antagonismo de ilimitaçao e limitação, que era a essência genérica dos seres, na exposição filosófica de Pitágoras, como se vê pela definição que lhe deu Filolau. A contenção dentro dos limites obedece à lei da harmonia, que surge da subordinação das partes analogadas a uma normal dada pela totalidade, que é o producto dos opostos analogados em reciprocidade. Desse modo, há em todos os seres a presença de duas leis (logoi) que os orienta: a lei da conservação e a lei da expansão. A primeira tende a manter o equilíbrio dinâmico da harmonia, e a segunda é a tendência difusa do ser em afirmar-se, que é o poder . Essas leis regem todo o mundo do existir e também a vida psicológica e social do homem. Todo Kratos tende a conservar-se, mas também a expandir-se, e depois, a conservar as conquistas realizadas. Na vida social, o portador do Kratos sente despertar-se-lhe o ímpeto primário e fundamental, e tende a aumentar o seu poder e conservar os postos obtidos, e pela contribuição da inteligência e da afectividade, apoiada nos tempetamento e caracteres, tende ele a criar toda a gama astuciosa e cruel do aumento constante do poder.

Para muitos, a doutrina que expusemos pode ser argumento em favor do poder, porque este encontraria a sua justificação em leis fundamentais do homem, leis ontológicas do próprio ser, pois sabemos, como nos demonstrou a Filosofia Concreta, que, não havendo meio termo entre ser e o nada absoluto, o ser naturalmente é afirmativo e absolutamente afirmativo, e como não pode ao ser, tomado enquanto em si mesmo, sobrevir o nada, sua afirmação é absoluta. Quanto à lei da limitação, é esta dada pela natureza específica do ser composto, que leva a subordinação das funções particulares ao interesse da totalidade, de modo que todas as funções estão analogadas ao todo e obedecem a normal do interesse deste. Pode parecer que essa doutrina justificaria a opressão. Realmente, tal poderia acontecer e tem acontecido. Mas a humanidade não é formada de partes virtualizadas numa totalidade; ou seja, cuja subordinação seja total, a ponto de perderem a plenitude de sua forma, para constituírem apenas um elemento componente de uma totalidade. O ser humano é uma pessoa, e como tal possuidor de uma inteligência, de uma consciência e de liberdade, do exercício de escolha, embora pressionado por ímpetos diversos e dos mais poderosos. Os homens são mônadas de uma totalidade não física, porque a sociedade humana não é um organismo, como o é o corpo de um ser vivo. Se podemos falar de que a família é uma célula social, de que certos conjuntos funcionais da sociedade são órgãos de um grande corpo, toda essa linguagem biológica e orgânica não é empregada univocamente, mas analogamente. A sociedade humana não é um organismo univocamente, como o de um ser vivo, mas apenas analogamente, porque há aspectos semelhantes por entre aspectos diferentes, e não uma identificação formal. O homem é uma excepção no universo físico que conhecemos, é capaz de avaliar a si mesmo e seus semelhantes, e de escolher por entre modos de vida e de elevar-se em dignidade, não só pessoal como colectiva. A não cega obediência a uma lei universal não implica a anulação, mas, sim, a aplicação de uma outra lei, a lei da liberdade, que testemunha a inteligência e a capacidade de julgar, e, pela capacidade de acção, de executar o deliberado.

Até nos animais se manifesta o apoio-mútuo, a ajuda mútua. No homem tudo isso se torna consciente e se os animais não podem ultrapassar os limites formais nem vencer os obstáculos opostos pelo emprego de meios hábeis para demover o que lhe impede a marcha ascencional, por carência intrínseca, o homem pode, porque é munido da mente, que lhe permite escolher, pesar e medir possibilidades, preferir e preterir, dar uma direcção aos seus actos e inibir-se por sua própria escolha.

Pois bem, aqueles que não são capazes de desviar seus ímpetos de escolher entre a escravidão a um desejo, a um apetite, e a liberdade de escolha e de acção, não são fortes, não são os mais elevados exemplares da raça humana, mas fracos moveis de apetites irracionais. Grande é aquele que é capaz de erguer o gládio poderoso e não deixar que ele se abata sobre a cabeça do vencido. Grande é o que vence em si o ímpeto de domínio, de opressão, e reconhece o que é de direito (do que e conveniente a natureza dinamicamente considerada de cada um de seus semelhantes), e procede com justiça, dando a cada um o que é seu direito. Só assim o homem se afirma em toda a sua grandeza. Podem muitos, de espírito obnubilados pelos sofismas filosóficos e políticos, julgar grande o poderoso opressor de seus irmãos. Mas essa grandeza é miséria e falsidade, porque é injustiça, e ofende a plenitude do acto humano, cuja realização completa é o único ideal que pode erguer o homem em dignidade, e torná-lo realmente não um senhor do mundo, mas um criador de grandeza e não de mesquinhez.

Não resta dúvida que os apetites humanos, da ordem da sensibilidade e da afectividade, viciam a intelectualidade humana, e levam-no ao acto vicioso. Mas tudo é fraqueza e submissão ao que é animal em nós, e não ao que é humano. É por amor e respeito ao que é humano que o homem deve superar seus apetites inferiores e realizar-se plenamente. Precisamos salvar o homem e não perdê-lo. Não temos mais oportunidade de descer a escala e animalizarmo-no. Ou nos afirmamos como homens, ou pereceremos numa guerra de todos contra todos. A salvação humana é também colectiva, portanto.

2 Comments:

Blogger <> said...

a guerra só acaba quando a última esperanca morrer.
keep going

9:56 PM  
Blogger Fabio Alves said...

Olá, penso que os instintos inferiores dos seres humanos nunca tiveram tão aguçados como agora, e o pior de tudo, que a sociedade enxerga isso com naturalidade. Poucos conseguem olhar ao redor e entender o que está acontecendo com a humanidade.

9:17 AM  

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